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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Se o amor...

Se o amor que achou era infinito, guarda no seu peito o grito, acaso achar alguém,
outro sorriso que contém no esmalte de um olhar.
Se o amor que achou não terminasse, então figuras de um álbum incompleto
resvalassem sobre o teto
de vidro que se quebra o colorido de um Natal.
Então não fosse separado
o jogo, o braço não aceito,
o embaraço feito uma carta
de baralho embrulhada
em jornal.
O quanto a pressa aperta o passo, o prato limpo,
a mesa composta de ninguém,
na lareira do cômodo
possesso de estar bem.
Eu sei, fui mais feliz
e quem me diz se isso tudo é natural.
Se eu me perder pela alameda, um labirinto feito de papel.
Eu vi qualquer notícia,
a preguiça dispensada de motel, então quando tudo estiver certo, não há mais morte que me arranque desse céu.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Desconexo

Se eu não estou por aqui,
em qualquer lugar eu durmo.
Me assumo num planeta
numa quadra de basquete
sem notar pelo placar.
Se eu não fosse mutante
e usasse alto falante
entraria num disquete
para coagular, com plaquetas,
meus canteiros de girassóis
que não tem lugar pra morar.
Se eu, de repente, me escondo
numa rua repleta de gente e vazio
é que vou fazer uma viagem
para o escombro deixado de seu riso lacônico de despedida
e não vou me achar numa breve pausa, entre o delírio e a náusea.
Se eu não tenho casa
não vou mais de uma vez
ser anfitrião,
não vou me esconder debaixo da asa de uma mariposa.
Talvez eu me dilua na atmosfera de um lírio
e me condense num átomo
escondido atrás da orelha de um livro.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Poema de plástico

Depois do frio que não termina
e a dura superfície azul
a dissolver-se em firmamento
depois da intempérie do tempo

Há no espaço imaterial
um grito de qualquer centelha
Há entre duas pernas o que falo
fundir mais e menos completo

E o coração feito carne
feito de amor imprudente
depois que a íris desintegra

Há cores no cinza, quintal
que dilui a beleza simples
no plasma de um olhar de vidro

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Flores de papel

Havia um quintal
de cercado de bambu
e quem não tinha lápis
desenhava com tatu
escavando esse chão
forrado de jornal
pintando o sete
com a minha mão
um analfabeto procurando a vez
de fabricar o seu xadrez
em que acomete
em sempre ser feliz
havia nesse mato
além dos olhos um belo jardim
que era alguém de fato
mais azul
do que um pequeno céu.
Era uma flor menina
dentre todas a mais bela
com uma pétala bem amarela
feita do crepom
macio de um papel
também era lilás
e era roxa como um cartaz
feita de cartolina
ela sabia como é que se faz
e não tem jeito
no campo é que eu vou me achar
colher no peito
um belo buquê
para no mundo espalhar
o melhor que há de você
e que agora está dentro de mim

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A prostituta

Fechou a porta do quarto. Estava exausta demais daquela noite sem verão. Arrecadou o suficiente para pagar metade do aluguel da kitnetch alugada no centro velho da cidade. Elisabeth não tinha filho como a maioria das mulheres que viviam nas ruas para ganhar a vida no ofício de mulher da vida, como dizem alguns. Ela dizia: eu sou puta, simplesmente. Tão simplesmente como a vida é. Não sou da vida, sou da morte, que é quem me terá para sempre em seu leito. Ficava deitada olhando para o teto, fumando um cigarro, tentando esvaziar a mente. Não sentia culpa de vender seu corpo. "Não vendo o corpo, alugo. Meu corpo é meu e da terra". Dormia até meio dia mais ou menos, levantava-se logo, preparava o almoço e depois saia para andar pela cidade. Não gostava de reclusão. Solidão apenas de amor e para descansar. Fora isso preferia a companhia sem nome da multidão de gente que atropelava o instante no ir e vir das ruas. Nunca lembrava de um cliente, por mais atencioso que fosse. Medida de se desvencilhar de envolvimento. Medo de sofrer. Não falava de amor. Quando ainda jovem, se apaixonara por um rapaz. Foi o único amor. Mas este morrera de uma doença súbita e fatal. Desde então largou mão. Sonhou uma vida juntos, casar, ter filhos, ser feliz. Jurou não amar mais ninguém e cumpriu. Elisabeth era de todos os homens e nunca pertencia a ninguém. No início da noite, de batom vermelho, o ponto na rua ladeada de árvores e não era mais quem um dia sonhou um amor, era meretriz, ela era atriz para encenar mais um capítulo de sua história. Despojava homens de suas casas e esvaziava o sêmem que implorava para escorrer por entre suas pernas. Mas ela permitia apenas que sentissem seu gosto de embalagem, pois o presente, o essencial de sua carne, nunca seria de ninguém.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Amor de pecado

Amor é amor quando peca
para não se acabar dor
e foge sem razão agreste

Amor se acaba sem fim

perto de quem se quer e ama
não se entrega em desamor

e finda em brasa na cama

Não sente a roupa que veste

pois tem o coração puro
transbordando seu jasmim

amor se vê no escuro

Amor é um beijo distante
lembra um livro na estante
sede de uma boca seca

Funcionário

abaixo do chapéu ao sol
mora um rosto cansado
os olhos baixos, escuros

buscando sombra e abunda
dor, delírio, desamor

abaixo do uniforme
a pele em marron canela

esfoliando seu tempo
suas horas gastas em custas
de vida, sonho ou morte

os pés calcando no chão
a peleja, voltar isento

deixar na pele o cimento
a nódoa de viver gris

Adormecer

Um nobre descobre
em sua insurreição
que também é pobre
um ressuscitado
nas letras de um poema

Morre então o sábio
vive visceral
a sabedoria
de água que socorre
a sede e o rio corre

abaixo de lenços
de lençóis freáticos
um vir à tona

e a sílaba átona
adormecer fria e só
numa sepultura

Os morros

Não há nada que detém
a rua com seus muros próprios
atrás de um vermelho cru
na esperança de uma janela

que receba acenos, morte
de passagem, funerais

homens com a vista curta
e seus jornais embrulhando
o cotidiano com notícias

diante do morro, a sorte
de espichar os olhos nús

e sumir fotografia
dentro de um buraco escuro

os cães ladrando a vida
depois que essa noite cai

Dentro de casa

o olhar pra fora da casa
buscava sempre um aviso

uma cisma no entardecer
voz de andorinhas no céu

achei o cuspe endurecido
numa goma de mascar azul
desbotada de sabor e fel

e o risco de um disco pobre
enriquecendo depois
do jantar uma canção

a voz de meu pai dobrando
a esquina de dois em dois

um pra lá e outro na porta
pé de anunciar respeito

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Mina d'água

Nasce água
agora mina sua mágoa
derrete estantes
em geladeiras de antes
e depois correr
a serra abaixo para morrer
verbo com verbo
rima pobre
um ato nobre
um traço soberbo
que a soberania
na traduz
na fé que me cria
em epílogos e luz
Água agora
sacia-me na sua tangente
tinginda de transparente
minha alma encharcada
de ir embora
para cada
margem branca
de seu barro

Poema em pó

Poema,
para que poema
para sucumbir
a palavra azul
na estação sul

Poema,
para alimentar
silabas poéticas
cinco verbos nus
num truque voraz

Poema
que fica de quatro
para ocupar partes
de um atentado
ao pudor do vício

Poema
que enterra vivos
páginas e livros
na estante, cujo
belo está no sujo

Poema
poeira, à luz
da tela e pena
escreve poeira
no puz do dilema

Poema
que invoco pobre
que rogo sem fé
e derramo inútil
copo de café

Poema
puro ou com leite
pedaço de pão
caído nesse chão
de abrigar doente

Poema
velho e sem dente
de mastigar rugas
na cara da gente
e chorar vermelho

Poema
de caco e telha
de rastro de lesma
marcando seu tempo
com risco e gosma

Poema
que descamba vil
na puta que pariu
o outro filho seu
que não eu na sorte

Poema
de esticar a morte
na vala de ontem
onde dorme enfim
seus versos pretéritos

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