Tecer Palavras

"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..." Mário Quintana

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Capinzais

A terra densa e seca
lá fora plantando aridez aos olhos úmidos.
Ao meio dia, nem sombra, nem urubus,
apenas lá longe a vista alcança
uma poeira fazendo lambança
e uma boca buscando sede
pelas capoeiras e capinzais, feno estéril.
É que a cumbuca já esvaziou a cacimba
E, lá embaixo, um balde solitário pedindo
o abrigo das manhãs, água fazendo promessa
de voltar pelos lábios silenciosos
da carne agreste, sem jeito,
as pernas finas carregando a pequena criação,
que esmera agora, num canto novo,
uns versos de molhar o coração.
Crispa a pele, tece a voz de anunciação,
hoje, não foi Maria,
nem foi a noite fria que guardou o que era sorte,
foi uma peleja de morte
que arrebatou essa novena,
de quem calava e não pedia pena,
de quem vencia e não era forte,
pois o que era oração, virou pedra,
o que era fé, virou vento,
e o que era lamento já é corpo tombado
no espelho bruto desse cimento.

domingo, 8 de novembro de 2009

A tarde dos elefantes

Estava repleta,
um rosto escaldante
afogou a tarde quente,
olhos de elefante
guardando a memória
dessa gente
enquanto caia
aos seus pés desnudos
a invocação da liberdade
mais flagelada.
Ela estava distante
como um relâmpago
e os bêbados
guardavam
da sua compostura
uma ética descortinada,
sem vício, sem o indício
da virtude em ruptura...
Apenas amainava
suas horas
pescando qualquer abandono
em que a única companhia
era aquela calçada
vazia onde morava
a solidão...

sábado, 7 de novembro de 2009

Fantástico...

eu não sei porque é
que calo esse desespêro
com o qual coloco
trôpego e cambaleante
esse meu bêbado errante
de vestir cálices na noite...
não sei porque açoite
se me faço obstáculo
de sentir cócegas
nesas estrias de rir
um copo cheio
transbordando afeto
e um aperto de mãos
que acabei de receber...
eu sei apenas, cúmplice,
de estar meus lábios
dormentes, minha cama quente
pedindo o abrigo morno
do meu corpo frio...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Passeio

Tenho em mim toda palavra muda
nos canteiros abstratos da minha vida.
Da esquina absurda do meu descanso
ouço no sótão de me ser sereno
uma canção que fala de pedras...
Foram todas as imagens para
aquela rebeldia dos versos marginais
que sempre escrevi sem saber:
How does it feel? How does it feel?
Eram para bem longe de um tempo
tão estranho, onde o sonho era
apenas caminhar sem a nostalgia
do ontem, sem a proeminência do agora,
sem o equilíbrio da espera de amanhã...
Minhas vestes são sujas desse instante
amarrotado de escombro e caos...
Foram abertas todas as rugas
e a minha pele treme uma bossa
quase nova num rebuliço de som
que acorda nesses acordes justapostos
e esse léxico me perseguindo
como um vômito ruminado
por uma vontade de sempre ir embora
para uma estrada longínqua:
e um rebanho de versos espalhados
pelas relvas afora desse inusitado
passeio humano.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A condolência dos brutos

Tenra essa novidade,
e terá o concreto mais crespo
condolência dos miseráveis
diante de seus farrapos – esses embriões
da eternidade?
Mas não era como antes,
pois a lança transpassa o coração mortal
para além das ribanceiras
nesse abismo incamuflável de vida
e a sede dos bravos, aquela feita de gelo,
tão somente derrete a fúria dos vencidos
com uma lâmina ornando
a tez de espanto e que jaz
como lembrança de um sangue
que fana, doce face sem medo,
doce alma sem fé,
espasmado sentimento
de se fazer cru como uma borracha
vertendo sua lágrima nua e branca
e depois virar cinza, e depois virar pó...

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ode à invenção de ser

O insurgente vazio da espera
é tão vago quanto uma esfera inacabada
que ressuscita no calabouço
do imperfeito alguma forma
de ser apenas abstrata.
É tão cega a certeza,
que qualquer mudança que toma o vento,
tira-nos da convicção de absoluto.
O que faz sentido nessa inconstância toda
é esse culto que temos pelo absurdo...
Absurdo de sermos nada...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tomates vermelhos

Aqui, pescando alguma coisa na internet,
entre canivetes e sonhos,
diáspora da razão,
calcando o instante com bytes necessários...
Termina o limite de tudo, finda – pois era
um dia de sol, choveu tempestades
e bateu na minha janela uma letra marrom,
um sino sem tom, forte e branco
como qualquer flanco sem sabor.
La fora era tudo verdade,
aqui dentro, alguma saudade sem tato,
algum fato imprimido e um estilete
encostado na garganta pedindo sede...
Na rede, era fausto e fauno – tomates vermelhos
e um espelho invisível retratando
o mesmo ponteiro do relógio
que girava nas salas várias do mundo...

Seguidores

Longa Milonga

Da carcaça que caça e se faz praça em nós,
fica apenas o lado oblíquo
da nossa irreverência
estendida como um varal de boas vindas
no fundo do quintal.
Da casca que se abre depois das onze,
apenas procuramos o limite tolhido
pelos carrapichos e capins
na pequena trilha que dará fim ao início
da nossa procura,
à cura da nossa loucura,
postura ao limitado.
Surto é estar entre iguais
“quando um monte de gente se junta para não dizer nada em especial”
e ainda fazer um pedido entre parênteses
na ante véspera da vida
encoberta pelos curtos panos
de uma saia.


Obrigado, amiga Renata Braga, pelas considerações, pelas palavras lavradas com o sabor agridoce da sua alma de poetisa ilimitada.

Metamorfose

Recolha os gravetos jogados no chão
E transforme-os em letras
E num cantinho especial
Teça a vida e o momento
Como quem faz uma poesia.

Quem sou eu

Minha foto
Márcio Ahimsa
Existe um segredo que está calado e quer dizer mais que a palavra pode revelar. Nesse segredo eu confesso minhas verdades e solidifico minhas mentiras. Meus medos são estradas abertas n`alma pedindo passagem para revelar meu eu.
Visualizar meu perfil completo
"Ah, antes tudo! Um tudo submerso em fantasias nessas orgias minhas de cada dia – onde meu espelho é mesmo aquela reflexão de nada refletindo uma história criada ao caos do acaso de viver. Pois que viver é um acaso, pois que amar é um caso criado de eternas buscas, é um raso riso oriental onde as pétalas de papoula se abrem discretas"

"e o fino disso tudo ser apenas a pena que eleva onde ninguém mais pesa por falta de coragem"

"Um aço que reveste o frio com uma estopa, farrapos e esmeros, tutela aprendiz de homem, que deixa às mãos do menino, às traças do destino, um riso pueril"

"Vem apreciar as coisas tortas que o acaso não mostrou e regar uma horta de amores..."

"Chegou... Sorriu, fez um aceno e partiu, fez uma reserva de bem querer e deixou aqui guardado em muitos cantinhos Tum, Tum, Tum"

"E eu sei que eu quero você bem mais que perto para me inundar em seus olhos e sorri"

"E assim, o leste que abriga as manhãs, abriga meus dias..."

"Não sei sobre amanhã, nem sobre tuas escolhas, sei apenas que quero estar em ti, quero permanecer como permaneces em mim, sorriso brando"

"Eu sempre me perco de mim, depois me encontro
por ai no olhar perdido de alguém... que queira me encontrar"

"E cheguei, fé, entre a lança e a rosa e agora pingo solidão em gotas de orvalho"

"No céu – a última estrela se apagou, e um resquício da noite acompanha em forma de sombra essa solidão"

"Para aqueles que aqui passaram, um abraço franco e terno, para quem ainda está por vir, seja bem vindo, pois algo novo está por começar. Peguem as agulhas, o crochê e teçam suas vidas como uma poesia, sempre. Que o ano novo seja um despertar de alguém novo que dorme dentro de cada um, que o ano velho seja um viés de aprendizagem, que ajuda sempre a manter equilíbrio e serenidade."

Márcio Ahimsa 31/12/2008

"Na manhã de Abril, meu dia abriu-se num estio com uma lembrança que aconchega e acalma"

"Os pés foram seguindo o vento vestidos de chinelas, lento casamento de liberdade, e a saudade ficou pra trás"

"A boca calada revela muito da vela que se apagou"


Selo de minha amiga Esther

Presentinho carinhoso de minha querida amiga Mai. Obrigado, querida.

Presentinho carinhoso de minha querida amiga Mai. Obrigado, querida.

Participar é deixar a negligência sem saída, é deixar as mãos atadas com o compromisso.

Participar é deixar a negligência sem saída, é deixar as mãos atadas com o compromisso.

Selos de minha amiga Erica Maria

Selos de minha amiga Erica Maria

Trilhas e tons