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terça-feira, 10 de março de 2009

A importância das coisas


Para mim é difícil e por deveras doloroso, pois nada tenho com a vida alheia, e confesso mesmo, que pouco me interessa os modos, a aparência do outro, ter de abordar algo que nada tem a ver comigo, pelo menos diretamente. Podem, por indução da afirmação, acusar-me de indiferente. Sou, confesso, nesses percalços, dada a gravidade com que me foi concebida a personalidade, fugindo a relatos mais íntimos, atenho-me a dizer que foi como a de milhares de outras pessoas, dado este que não me faz ser melhor nem merecedor de uma atenção mais refinada por parte de ninguém. Porém, tantos fatos cotidianos chamam-nos a atenção, ainda mais quando o prazer, o verdadeiro sentido da vida, dá-se por senti-la assim, pelos pormenores, coisas pitorescas, que trazem algum brilho nos olhos pelo fim da tarde. Quem é poeta, por fim, escreve qualquer verso livre, quem é filósofo, devaneia seus pensamentos insólitos ou não, e chega a alguma conclusão ou divergência. Mas o ocorrido é tal e fato. A tarde caía lenta com um verão assimétrico, dado o fervor com que atulhava por volta do meio dia e com que se disseminava pela tarde em aguaceiro, coisa normal e do clima tropical que qualquer país um pouco abaixo da linha do equador tem. Aqui, cidade de São Paulo, conhecida como terra da garoa, não é diferente. Com o calor, percebe-se naturalmente as pessoas agitadas e com as vistas cansadas, todas marchando rumo a algum destino. Uma mulher robusta, fatigada pelo sol quente, segurava as pernas encostada próxima à entrada de um banco. Motoboys entravam e saíam com suas pastas pretas, com suas mochilas abarrotadas de papéis. Nada de anormal, a não ser pelo fato dessa mulher se deixar cair e desfalecer os sentidos. De início, ninguém dera pelo seu mal estar. Acresce que ela caíra de cócoras, deslizando levemente as costas pela parede e permanecera ali, sentada, com a cabeça enfiada entre os joelhos. As mesmas pessoas entravam e saíam do banco sem darem pela existência dela. Passou uma tropa de policiais que faziam a ronda a pé, também não deram pela presença da senhora. Uma velhinha de cara chupada, por fim, percebe a desvalida caída e tenta reanimá-la. Enquanto isso, um grupo de rapazes observa as garotas passarem com seus decotes. Um deles diz: - Essa é gorda, estou fora. Outro concorda com a cabeça e repara as nádegas avantajadas de outra moça que passa com um short jeans justo e apertado. O meliante insiste em pedir uns trocados e conta sua história de que não tem família e precisa comer, pois, segundo ele, faz dois dias que não come nada. Sua cara inchada em decorrência dos males do fígado o condena, e poucos o ajudam. A mulher continua caída e a senhora tentando reanimá-la. Esta, por sua vez, tenta chamar ajuda. Fala para o camelô que possui uma banca de CDs piratas que há alguém passando mal. Este passa os olhos pela mulher e diz para a velha que é vertigem. Basta tomar um gole d`água que passa. A velha então se dirige ao boteco mais próximo e pede um copo com água e explica que é para alguém que está passando mal. Quando volta, a moça já não estava mais ali. Havia recobrado os sentidos. Levantara-se então e foi embora. A velha toma a água e, sem entender nada, segue também o seu rumo.

O que há de interessante nesses acontecidos, é que na verdade, não há nada de interessante. Voltei para casa cheio de cenas na cabeça. Um calor insuportável me corroendo o cérebro. No caminho, sempre sigo com cabeça sempre ereta, com o olhar sempre direcionado para frente. Desconheço os lados da rua. Percebo sempre os vultos das pessoas. Às vezes, surpreendo-me sendo chamado por algum conhecido. Fato que considero normal, mas que não dou muita importância, pois sou despercebido de mim mesmo. Na rua onde moro, percebo apenas que sempre as mesmas pessoas estão sentadas no meio fio em frente de suas casas. Percebo que algumas senhoras estão ali apenas para observar o viver alheio. Para comentar sobre determinada garota que perdeu a virgindade, ou sobre aquele rapaz que, de vez me quando, resolve enrolar o seu cigarro de maconha e fumar discretamente. Percebo também que um negrinho é mal visto pelo dono do mercadinho do bairro, pois anda descalço e com as roupas em molambos. Percebo também que os melhores amigos também são todos cheios de bobagens e que também julgam as pessoas pela aparência. Percebo que ninguém é perfeito, e que por isso mesmo, nada tenho que achar correto ou errado os seus atos. Mas afinal, porque falar de coisas sem importância. Confesso, não sei. Apenas meneio a cabeça em aceno e cumprimento que para mim nada significa, pois é apenas um gesto involuntário. Se me cumprimentam, ou não, tanto faz. Isso é algo que me tenho comigo. Alguns, creio, não vão muito com minha cara e minha indiferença. Eu também os compreendo. Sou assim mesmo. E não ha nada que me faça sorrir ou chorar, além de me sentir feliz comigo mesmo. E essa tolice toda nada tem a ver com confissão ou arrependimento. É algo que desejo falar, para eu mesmo ler, para eu mesmo contemplar e raciocinar. Só sei, nesse meu aprendizado de vida, nessa filosofia intrínseca minha, que amor ou desamor, nada tem a ver com o jeito de ser de cada um. A velha senhora não chamou o resgate, mas nem por isso seu ato foi menos nobre ao buscar um copo dàgua, nem do camelô, que apenas a instruiu a pegar o copo de água e não deu maior importância para o caso. Na verdade, todo mundo é assim, todo mundo tem medo de se intrometer e se ver no lugar de outro. Todo mundo é mais ou menos relapso, é mais ou menos curioso. E, de natural, é tudo e toda conduta humana, pois que o mundo é um caldeirão de pessoas vivendo suas vidas conforme suas crenças, culturas, aprendizados, etc. Eu, de vez em quando choro, mas minhas lágrimas também não querem dizer nada.

De interessante é saber que minha morte é apenas mais uma morte em meio a milhões de outras mortes, que meu amor, se é que há algum amor em mim, é apenas um amor dado a qualquer ser deste mundo, que minha dor é apenas uma das muitas dores que já tive e terei. Que meu viver no mundo não é mais que o viver de uma minhoca. Que minhas palavras não são nada mais que pensamentos que resolveram escapar da minha cabeça e que a ilusão existe sempre para confortar os medos, e que os sonhos são apenas nuvens que sobrevoam nossa consciência para nos matar menos dolorosamente que a espada. Afinal, morrer agora, ou morrer daqui a 30 anos é a mesma coisa, pois será sempre o mesmo eu que morrerá. Essa frase, confesso, não é minha, é de um escritor Argelino, que gosto muito. Mas também não tem importância, pois é a mais pura verdade, e não é só dele, nem minha, é de todos. Só sei que me despeço de mim, um pouco, a cada dia. E que todas as bobagens que penso, não passarão de um mero rascunho esquecido aqui nessa gaveta virtual.

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