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sábado, 21 de julho de 2012

O lugar da gente

O lugar pertuba o homem. É pertubador... As businas soando aos ouvidos quase surdos.
Vive a descoberta de um nascer ao relento do dia. Cães de olhos famintos.
O que não pode fazer é rabiscar a tarde com a sirene dos desgraçados.
A rua morre.

Ainda veste o seu casaco azul, o asfalto cinza, a lápide lacrando a hora
com benevolência. Tomba no sinal e prédios velhos abrigando velhos amigos,
estranhos ao mundo, alheios à regra nova de viver pelo susto das manhãs.

É pertubador. O sino corrompe a virgindade da catedral que, agora é ornamento
para o clique das câmeras. Fotografias penduradas num varal...

O lugar procura o homem, se esconde no homem, é abrigo do homem.

A espada de Jorge não é mais verde. É carcomida.
As tentativas de sorte são iguais ao quase abandono da esperança,
não se deixa. Nem que a morte ria desacreditada.

O lugar abusa do homem que abusa do lugar que usa o abuso para se achar no lugar.

E, de antemão, o vício
resquício de um ópio,
não se esquece, antes enlouquece
os lábios, fina estampa,
e engole em seco a saliva
e dilacera a alma
e decepa o corpo
e entrega na estirpe da vida
o óbvio instante que,
perecível, inventa a dor
para salvar o homem
do lugar que o consome.

É pertubador. O relógio. O anúncio em cartaz e outdoor:
ele está livre para morrer cozido numa panela de pressão...

O lugar observa a chegada de gente, se infiltra na goludice da gente, flerta com a gente e se faz
parte indispensável de criar a gente. A gente é indiferente, o lugar é que existe...

2 comentários:

wilson guanais disse...

desconfio que esse lugar é agora.

Maria Liberdade Oliveira dos Santos disse...

...O seu lugar é ao lado dos amigos, que apesar de distantes, não esquecem de você!

Abraço fraterno!

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