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domingo, 5 de agosto de 2012

Ausência

Quantos aviões preciso
para levar embora meu desespero?

Meu medo de altura, minha falta de fé
de que abaixo do chão não há precipício.

Caio, sob o peso da ausência,
pelos buracos e pedras
que encontro pela calçada da minha rua.

E os balaústres vigiam, do alto das fachadas,
o caminhar cocho das pernas sem esperança
ao encontro do que adiante é bonito.

As portas ornamentam, entre trincas e correntes,
mais do que uma fechadura - são grades -
prisão que acolhe para si
como sentinela a espreitar o que ocorre lá fora.

E as janelas, entreabertas, revelam o esconderijo
que salta por detrás dos olhos famintos
de gente.

A rua é silente, apenas o silvo do vento
e o espectro da fumaça esvaindo-se
a cada trago no cigarro do jornaleiro.

Quantos maços são preciso
para alimentar o vício e a fome
de apascentar a angústia, o que não tem nome?

Vou-me embora; e retorno cedo
e assisto a ópera sem segredo algum
que se revela pelos gritos da rua de paralelepípedos.

Trancos, solavancos, carroças onde encontro,
na pujança dos meus dias,
a minha sorte de ser feito de ferro por fora e, por dentro,

derramo, visceral, um sentimento maior desse mundo.


2 comentários:

Uma superfície de gelo ancorada no riso disse...

Creio que a ausência seja ainda, aquela que pinta os olhos, colorindo-os de distâncias sem que haja pranto algum por isso.

Texto muito (bem) expressivo, como todos os teus escritos.

Beijo na alma,
Sam

Fanzine Episódio Cultural disse...

O canto do cisne

Sentado à beira de um rio
Encontra-se um poeta.
Furtivo em pensamentos
Mudo, sem fala, sem dialética,
Expurgado de sua realidade.

Outrora ousado,
Selvagem e valente;
Agora patético
Pusilânime e negligente.

Em seu flanco esquerdo
Eis que surge um cisne
- Negro como a noite -
Tão misterioso quanto
O seu canto.

Subitamente o poeta ressurge,
Incomodado pela intuição.
Como criança, agarra-se
A um pedaço de papel
Que o tortura com um látego de palavras.

Lágrimas lhe caem do rosto,
Rubras como a vergonha
Vermelhas como o sangue.
...E ao longe, quase tocando
O crepúsculo, ouve-se
Um belo e derradeiro
Canto de um cisne.

(Agamenon Troyan)

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