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domingo, 13 de dezembro de 2009

Caleidoscópio

Houve um desejo, e o desejo se fez presente. Houve a fome e a languidez das horas que eu deixei ir embora, tão vazias, tão cinzas, tão nuas. Agora, meu desejo é me vestir de palavras, me vestir de sílabas e versos, desses que o abandono da solicitude e do esmero vaidoso dos súditos mais eficazes e abatidos pela aceitação, meus modelos de criação, mas que eu também abandono, pois não sou o sono esperado dos mortos, nem o cansaço escolhido dos relutantes e rutilantes escravos da forma. Abandonei toda forma, abandonei toda premissa, todo caso mau fado, abandonei o objeto principal do meu valor e me dei conta do quão isolado sou do mundo, das coisas, vestuta arte que ignora a própria sina. Ora, trarei meus objetos, trarei minha história, trarei minha trajetória para mais perto do meu fim, sim, pois meu fim inicia-se quando me aproximo do meu começo iminente. Essa criação é a palavra se desenhando a cada instante, que chega tímida e calada e explode em artifícios de dizer... Ah, mas que esse caminho era mais perigoso, porém preciso. Isso digo, contra a noção que tenho do tempo, pois que sou alheio a todo momento, às querelas que eu quis, às vicissitudes que desejei, e rubro, fui, e rubro voltei, agora para mais perto de mim, onde estive a mercê de não cultivar nesgas sequer, apenas folhas miúdas, ralas em espécie, delgadas em importância... Ah, digo sim, digo que a intempestividade da minha carne sempre esteve sujeita à minha condição de ser... Eu sou alheio, sou esse verso sem ritmo que vai dar sempre em algo espantoso, por não ter significação alguma. Eu sou, nessa linguagem psicológica do ser, disperso e relapso, eu sou fugaz, como uma raposa que foca apenas na possibilidade de roubar o galinheiro. Pois sim, a poesia é meu galinheiro, o verso meu poleiro, a palavra minha saliva que procura o sabor de apenas dizer, sem se ater às relevâncias e significados que poderiam ter...

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