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segunda-feira, 1 de março de 2010

a vela

de repente vinha o cangalho
e as tardes mornas prometendo encanto.
como repetir para a tristeza da lua
que os fantasmas da rua do cais
não carecem mais do fio prateado da noite?
e tinha gente que se escondia
e traçava uma rota diferente
e as pontes velhas rangiam
murmurando a mesma canção.
os tambores gritando todas as forças
invocando os espíritos das manhãs...
de que parte do mundo pertences?
perguntavam os velhos alforriados.
a primeira sensação ficava como
um esboço: riso e liberdade.
um chocalho era um guizo neanderthal
e provocava espanto,
dois sininhos dependurados
pelas guelras de couro,
um pouco abaixo das orelhas,
faziam a saudação.
o homem com cara de besta
pronteava o tamborete,
equilibrava-o, sentava o guri,
e, zás, a fotografia estava pronta,
o burrico apenas espiava
sem desconfiança.
depois um vento forte
varreu tudo para longe,
agora resta apenas a parte
amarelecida da memória,
uma parede rachada
e um contador de história
para lembrar a vela
que não se apaga...

3 comentários:

SILVANA PEDRINI disse...

Olá, passei para ler!

Abraços!

Lílian Alcântara disse...

como repetir para a tristeza da lua
que os fantasmas da rua do cais
não carecem mais do fio prateado da noite?

_

estou tentando responder à esta e às outras perguntas feitas no poema... diga que são retóricas pra que minha cabeça pare...

J. disse...

Já leu Mia Couto? É um autor moçambicano fantástico! Enquanto eu lia seu poema, em alguns momentos me lembrei de Mia, que versa muito sobre os africanos e seus ritos e costumes.
Gostei daqui.
Beijo.

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