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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os quintais

Numa praça, tomada pela atmosfera
de um horizonte circular,
está sentado, sob a espreita
do vazio e o caos,
num banco, entre o silêncio
e a placidez dos seus olhos:
um velho...
Chega uma menina, com seus olhos grandes,
com sua boca curiosa
entrecortando as palavras
por entre a língua inocente
e os dentes, que já foram janelas,
agora destacados, e pergunta:
- Que é isso em seu colo?
- É um livro. Responde o velho.
- E esse livro é sobre o quê?
- Poemas...
- E quem escreve poemas é escritor?
- Não, quem escreve poemas é poeta.
- E o que é poeta?
O velho coça a barba grisalha, enverga
a sobrancelha direita numa ar pensativo
e responde.
- Poetas são pássaros que voam todos os dias
para outros quintais.
A menina balança as pernas, estica os braços, arregala os olhos e:
- Poetas são tristes por não morarem na árvore
de apenas um quintal?
- Não, triste é a folha vazia e branca
onde pousa o poeta com seu olhar de grafite.
Então, a menina pega o livro, abre-o, rasga uma página
e a lança pelo vento morno da tarde.
O velho, sem entender nada, pergunta:
- Por que rasgou o livro e lançou a folha ao ar?
- Porque há pássaros cegos que precisam
aprender a ler esses quintais...

4 comentários:

Sylvia Araujo disse...

Lindo, leve, puro e doce.
Nada como o olhar das crianças para nos fazer enxergar o que sempre esteve ali, embaixo dos olhos, mas cegos não vemos.

De uma belezura poéticamente linda.

Beijomeu

Improvisos de um louco disse...

grande poema... só me perdi um pouco no final ...rs...

Mai disse...

Você é tantos...
bjos, poeta.

Sentimentalidades-Todas disse...

aplausos com a boca: "cloc, cloc"

sou péssima com as anomatopéias...rs

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